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Mostrando postagens com o rótulo cecilia

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu... Cecília Meireles

Renovar

Renova-te. Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica-se os teus braços para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, Para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo. (Hoje seria o aniversário de Cecília Meireles. Ela faria 110 anos. )

Assovio

Ninguém abra a sua porta  para ver que aconteceu:  saímos de braço dado,  a noite escura mais eu.  Ela não sabe o meu rumo,  eu não lhe pergunto o seu:  não posso perder mais nada,  se o que houve já se perdeu.  Vou pelo braço da noite,  levando tudo que é meu:  — a dor que os homens me deram,  e a canção que Deus me deu. (Cecília Meireles)

Ou Isto ou Aquilo

  Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva!  Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!  Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.  É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares!  Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.  Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . . e vivo escolhendo o dia inteiro!  Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo.  Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.  Bons tempos os seus, Cecília, em que as opções eram realmente  ou isto ou aquilo. Hoje são tantas , que de tantas, estamos tontos.

Vigília das Mães

Nossos filhos viajam pelos caminhos da vida, pelas águas salgadas de muito longe, pelas florestas que escondem os dias, pelo céu, pelas cidades, por dentro do mundo escuro de seus próprios silêncios. Nossos filhos não mandam mensagens de onde se encontram. Este vento que passa pode dar-lhes a morte. A vaga pode levá-los para o reino do oceano. Podem estar caindo em pedaços, como estrelas. Podem estar sendo despedaçados em amor e lágrima. Nossos filhos têm outro idioma, outros olhos, outra alma. Não sabem ainda os caminhos de voltar, somente os de ir. Eles vão para seus horizontes, sem memória ou saudade, não querem prisão, atraso, adeuses: deixam-se apenas gostar, apressados e inquietos. Nossos filhos passaram por nós, mas não são nossos, querem ir sozinhos, e não sabemos por onde andam. Não sabemos quando morrem, quando riem, são pássaros sem residência nem família à superfície da vida. Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável, esperando o que não vem, o r...

A Arte de Ser Feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.  Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.  Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião pa...

PRIMAVERA

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega. Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores. Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende. Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio d...

AS MENINAS

As Meninas Arabela abria a janela. Carolina erguia a cortina. E Maria olhava e sorria: "Bom dia!" Arabela foi sempre a mais bela. Carolina, a mais sábia menina. E Maria apenas sorria: "Bom dia!" Pensaremos em cada menina que vivia naquela janela; uma que se chamava Arabela, uma que se chamou Carolina. Mas a profunda saudade é Maria, Maria, Maria, que dizia com voz de amizade: "Bom dia" Cecília Meireles