Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo pessoa
"Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim...” Álvaro de Campos

Feliz Dia para Quem É

Feliz dia para quem é  O igual do dia,  E no exterior azul que vê  Simples confia!  Azul do céu faz pena a quem  Não pode ser  Na alma um azul do céu também  Com que viver  Ah, e se o verde com que estão  Os montes quedos  Pudesse haver no coração  E em seus segredos!  Mas vejo quem devia estar  Igual do dia  Insciente e sem querer passar.  Ah, a ironia  De só sentir a terra e o céu  Tão belo ser  Quem de si sente que perdeu  A alma p’ra os ter!  Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Todos os sonhos do mundo...

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.  TABACARIA  (15-1-1928 ) Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas olhando para a direita e para a esquerda, e de, vez em quando olhando para trás. E o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha visto. Sei ter o pasmo essencial que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras. Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo. Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender. O Mundo não se fez para pensarmos nele, mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, mas porque a amo, e amo-a por isso. Porque quem ama nunca sabe o que ama nem sabe por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência, e a única inocência não pensar...   Fernando Pessoa Lindo isto, amo a natureza porque amo!!!

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. Alberto Caeiro

Na Casa Defronte

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, Que felicidade há sempre! Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. São felizes, porque não sou eu. As crianças, que brincam às sacadas altas, Vivem entre vasos de flores, Sem dúvida, eternamente. As vozes, que sobem do interior do doméstico, Cantam sempre, sem dúvida. Sim, devem cantar. Quando há festa cá fora, há festa lá dentro. Assim tem que ser onde tudo se ajusta — O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza. Que grande felicidade não ser eu! Mas os outros não sentirão assim também? Quais outros? Não há outros. O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada, Ou, quando se abre, É para as crianças brincarem na varanda de grades, Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram. Os outros nunca sentem. Quem sente somos nós, Sim, todos nós, Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada. Na...